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No gozo dos pássaros não há solidão

E-book
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Livro físico
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1/2

Livro físico: R$30
Versão para Kindle: R$20

Autor: Ítalo Lima

Primeiro livro físico de crônicas eróticas e satíricas do escritor Ítalo Lima. Um voo sem asa pela liberdade da pele. Uma exaltação ao corpo-afeto. Livro potência sobre a força do gozo.

  • Projeto gráfico: Área de Criação

  • Revisão: Bruna Campos

  • Ilustração de capa: Prawny - pixabay.com

  • Ficha Catalográfica – Gleydson Santos CRB-03/1219

  • ISBN: 978-65-991792-6-6

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O Beabá do desejo: as múltiplas pulsões da carne 

Por Vanessa Teodoro Trajano

Depois de ter lido os variados tipos de crônicas enquanto leitora voraz ao longo dos anos, tive o prazer de me deliciar com este livro do grandioso Ítalo Lima, onde o erotismo é visivelmente um aperitivo além. Não que os textos consagrados que nós conhecemos não sejam atraentes e necessários pelos seus próprios motivos, porém é sabido que alguns cronistas parecem temer explorar mais dessa nuance que acontece com todo mundo – ao passo que o sexo jamais deveria ser ignorado, já que uma das funções desse gênero textual é justamente descortinar o dia a dia das pessoas.

 

No gozo dos pássaros não há solidão possui resoluções rápidas e inesperadas que contribuem para a quebra de expectativa e a comicidade daquilo que seria trágico se não fosse engraçado. Ao tecer a respeito de traições, de aventuras libidinosas e da recorrência do ex com desfechos que inspiram gargalhadas, Ítalo Lima nos tira do lugar comum de reprovação da intimidade alheia e leva o leitor à catarse que só a arte está apta a proporcionar.

 

Isso porque existem fatores pulsantes em suas histórias: a liberdade do gozo (com o outro, o que é bem melhor) e a capacidade de ser onisciente na safadeza das personagens – que podem ser eu, você, o autor, ou um transeunte aleatório. Pois se há quem evite falar pelas mais enfadonhas justificativas, o escritor põe uma lupa sobre, numa poeticidade crua e propositalmente desconstruída.

E quando digo “desconstruída”, não é na tentativa de ser cool ou aderir aos modismos sem nem saber o que eles significam. É entender que a volúpia colocada por questões (a)morais para debaixo do tapete é por si só intrínseca a qualquer tipo de desconstrução. Essa conduta, ao contrário do que apregoam por aí, admite amarras ou mordaças sociais muitas vezes só na aparência, já que elas ansiosamente se desatam quando a esposa viaja e o marido procura um boy no Grindr, por exemplo.

Talvez seja essa a razão de Deleuze afirmar que o desejo, “em vez de ser coisa ou pessoa, ele é, contraditoriamente, acontecimento”. E é nessa organicidade em que as personagens de Ítalo se movimentam, seja por apresentarem preferências pessoais inquestionáveis, ao alegar “nada contra gordos, eu só não curto mesmo. Peludos eu também não gosto. Coisa minha, sabe?”; seja por mostrar o quanto a heteronormatividade compulsória pode ser desdobrável diante daquilo que entendemos como tesão – as regras nasceram para serem quebradas, de preferência na cama e com uma boa revirada de olhos.

Além disso, um escritor que ousa registrar para a posteridade que “Deus é uma mulher de unhas postiças” merece ser lido, tendo em vista que essa metáfora e as narrativas quase fílmicas presentes nesta obra conseguem, ao meu ver, contemplar a comunidade LGBTQIA+, embora eu, enquanto mulher cis e hetero (será?), também tenha me sentido representada nos seus enredos.

Portanto, vocês verão nestas luxuriosas páginas que o simples fato de lê-las é um ato de resistência. E se a militância pela liberdade sexual iniciada há mais de cinquenta anos tem sido fortemente ameaçada pela onda de conservadorismo (e caretice) crescente, proponho que façamos agora uma revolução diferente: aprender com este livro, que não é apenas um inocente registro da vida privada, como deixar o desejo escorrer. Vamos ver quem se encharca primeiro.

 

 
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